terça-feira, 11 de maio de 2010


Por que uma criança precisaria da ajuda de um psicólogo?
Cinthia Dutra


Esta pergunta me é feita constantemente por pais e pessoas em geral não ligadas ao trabalho com crianças. Talvez, o mais correto fosse perguntar: "por que uma criança NÃO precisaria da ajuda de um psicólogo?". Excetuando os casos de patologias graves, em que é "aceitável" um acompanhamento psicológico, os adultos em geral não entendem como é que crianças, "seres tão puros, livres de problemas, que vivem num mundo colorido, sem preocupações", podem necessitar de psicoterapia. Esquecem-se de que as crianças também sofrem. Crianças sentem medo (muito mais do que imaginamos), angústia, preocupação, rejeição, e até depressão.
Muito cedo, as crianças aprendem que vivem num mundo cheio de contradições, e a forma que desenvolvem para lidar com este mundo, a maneira como vão existir nele, é muito particular: muitas se saem bem, outras não.
A investida das crianças é em direção ao crescimento. Quando encontram obstáculos a este crescimento (que podem ser fatos desagradáveis com os quais elas sentem que não podem lidar, como excesso de rigidez por parte dos pais, falta de confiança neles, sentimento de abandono, separação dos pais, etc...), adotam algum comportamento que parece servir para fazê-las avançar. É aí que surgem os chamados "desvios de comportamento", que acabam sendo a queixa dos pais quando chegam a procurar um psicólogo. As crianças podem desenvolver inúmeros comportamentos considerados "inadequados", na tentativa de ir em frente e crescer: podem agir de modo hostil, agressivo, hiperativo, ou podem se retrair, falar pouco ou quase nada. Podem vir a ter medo de tudo, ou tornar-se exageradamente boazinhas, ou agarrar-se aos adultos de forma irritante. Podem fazer xixi nas calças, ter asma, tiques, alergias, dores de cabeça ou barriga, mentir etc. Esse tipo de conduta é o "aparente", o "sintoma" de alguma coisa mais profunda, esta sim, a real dificuldade da criança. Como diz Violet Oaklander (Descobrindo Crianças), "Debaixo dessas tentativas de lidar com o mundo, existem sempre necessidades não satisfeitas que resultam numa perda do senso de si próprio".
Nesse sentido, a psicoterapia funciona como uma tentativa de confrontar a criança com a forma inautêntica de ser da qual ela está se utilizando, à medida em que ela vai se abrindo para suas inúmeras possibilidades de estar-no-mundo.
O meio de auto-expressão natural da criança é o jogo, a brincadeira, o que faz da ludoterapia uma oportunidade ímpar, dada à criança, de ser ela mesma, de expressar seus conflitos, medos, ansiedades e angústias, reconhecer e aceitar seus sentimentos e a si mesma, primeiro passo para uma existência mais autêntica e feliz. O papel do terapeuta é, então, ajudar a criança a seguir, da melhor forma possível, seu caminho em direção ao crescimento.

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